Há os de várias classes. Desde aqueles de bancada, até aos mais profissionais que conduzem os destinos do nosso clube preferido. De outra perspectiva, podemos afirmar que os há também para diferentes desportos. Mas como distinguir um bom de um mau treinador?
A resposta mais evidente passa sempre pelos seus dilemas tácticos, pela maestria como selecciona entre as várias opções aquela que dá mais resultado, ou como prepara a equipa física e mentalmente para as competições que disputa. Mas se esse for o caso, negaríamos ao desporto a componente clara de imprevisibilidade que o acompanha, desde a bola que vai à trave ou ao aro, até ao stick que quebra no momento mais inoportuno. Mais do que isso compreenderíamos o desporto como uma equação cujas variáveis se conjugam de forma mais ou menos perfeita de forma a produzir um resultado específico. E convenhamos, por muito que gostemos que a nossa equipa ganhe, não há maior prazer do que o ver fazer com classe ou qualidade.
O treinador será então o matemático que dispõe incógnitas na equação?
Sim, se considerarmos que uma formação sólida nas componentes cientificas do desporto é garantia de grande parte do sucesso, mas isso bastará?
Recordo-me então dos inúmeros atletas que passada a sua vida útil como desportistas, encarnam nessa mítica função de treinador, conseguindo sucessos iguais ou até maiores do que os conseguidos ao longo da sua anterior carreira. Vem-me à ideia também que face a essa nova responsabilidade, a de dar a cara por uma equipa, muitos irradiam uma tranquilidade natural de quem evoluiu ou, pelo contrário, mostram uma máscara de desconforto.
Essa transição natural envolve sempre essa componente maliciosa de distanciamento, se antes o homem jogador intervinha em campo, agora o homem treinador apenas o faz ao longe, manipulando os fios condutores da sua equipa. E se antes o sucesso e insucesso se diluiam na equipa, agora lá está ele, no topo da montanha, a dar a cara para o bem e para o mal.
O bom homem treinador percebe desde cedo que as equações se fazem de muito mais do que aparentam, e ao contrário do que ele esperava, não está no táctica nem nos jogadores o grande segredo, mas sim no comportamento. Se por um lado ele se acha capaz de agarrar o grupo de trabalho como um líder, perceber intuitívamente as subtilezas que cada componente específico tem, e mandar, dentro e fora de campo, como se na sua alma nunca se atravessasse a dúvida e a desconfiança.
Ser treinador é portanto a manipulação inconsciente de vontades. Da vontade do público e da vontade dos jogadores. Ele é essa interface, entre a pressão competitiva, as limitações, as esperanças e a vontade.
Vem-me à ideia Fernando Santos. Dos seus tiques nervosos e a sua distância prudente quando lida com a imprensa, público e até jogadores, preferindo a segurança que lhe dá uma certa timidez e falta de arrojo verbal, e pergunto-me será este um grande treinador?
Talvez.
Porque mais do que discutir as suas opções, há que discutir a sua personalidade. A um treinador pede-se que seja um líder. E um líder não tem dúvidas, não esmorece a sua vontade e não treme perante as luzes, quer as da ribalta, quer as outras, as impiedosas luzes do escrutínio que se lança quando o sucesso está comprometido.
Eis Fernando Santos e a sua equipa. Talvez antes de pedir títulos, se peça a uma equipa que descubra no seu treinador um líder. Porque quando o edificio treme e está prestes a desmoronar, são sempre os alicerces os primeiros a ceder, será sempre Fernando Santos.
E mantendo-me no futebol, não me parece estranho o sucesso de Scolari ou de Mourinho. Por muito que se discutam as opções do primeiro foi sempre esse capitão temerário em frente do barco, confiando cegamente em quem tinha levado a bordo. Por muito que desagrade o segundo, foi sempre a sua personalidade granítica que os jogadores olharam quando se acharam em desvantagem… aí o edifício tremeu, mas não caíu.






May 23rd, 2007 at 4:01 am
Muitos parabéns por esta crónica, que está realisticamente bem feita,
ABraço